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Alain de Benoist: Homem - Um Ser Enraizado, em Risco e em Aberto

Por natureza, o homem não é nem bom nem mau, mas é capaz de ser um ou outro. Como um ser aberto e em risco, ele é sempre capaz de ir além de si mesmo ou rebaixar-se. O homem pode manter esta ameaça permanente à distância, construindo regras sociais e morais, bem como instituições e tradições, que fornecem uma base para a sua existência e dão sentidos e referências à sua vida. Definida como uma massa indiferenciada de indivíduos que a constitui, a "humanidade" designa uma categoria biológica (a espécie) ou uma categoria filosófica emanada do pensamento ocidental. Do ponto de vista sócio-histórico, não existe o Homem em si só, porque seu pertencimento à humanidade é sempre mediado por um pertencimento cultural particular. Esta observação não implica em qualquer relativismo. Todos os homens têm em comum a sua natureza humana, sem a qual não seriam capazes de compreender-se mutuamente, mas a sua participação comum na espécie sempre se expressa em um contexto singular. Eles compartilham as mesmas aspirações essenciais, que são sempre cristalizadas em diferentes formas de acordo com o tempo e o lugar.

Nesse sentido, a humanidade é irredutivelmente plural: a diversidade faz parte de sua própria essência. Assim, a vida humana necessariamente está enraizada em um contexto determinado - que está acima da formulação, mesmo que crítica, que os indivíduos e grupos definem o mundo - e esse contexto define tanto as suas aspirações, bem como suas metas: no mundo real apenas existem pessoas concretamente enraizadas. As diferenças biológicas são significativas apenas em referência aos traços sociais e culturais. No que diz respeito às diferenças entre culturas, elas não são nem o efeito de uma ilusão, nem características transitórias, contingentes ou secundárias. Todas as culturas têm seu próprio "centro de gravidade" (Herder¹): culturas diferentes fornecem respostas diferentes a questões essenciais. É por isso que todas as tentativas de unificá-las acabam destruindo-as. O homem é enraizado pela natureza em sua cultura. Ele é um ser singular: ele sempre se situa na intersecção do universal (sua espécie) e o particular (cada cultura, cada época). Assim, a ideia de uma lei absoluta, universal e eterna que determina, em última instância, escolhas morais, religiosas ou políticas, parece infundada. Esta ideia é a base de todos os totalitarismos.

As sociedades humanas são ao mesmo tempo conflituosas e cooperativas, sem que se possa eliminar uma destas características em benefício da outra. A crença irônica na possibilidade de eliminar esses antagonismos dentro de uma sociedade transparente e reconciliada não tem mais validade do que a visão hipercompetitiva (liberal, racista ou nacionalista) que transforma a vida em uma guerra perpétua entre indivíduos ou entre grupos. Se a agressividade é uma parte essencial da criatividade e do dinamismo da vida, a evolução também tem favorecido no homem a emergência de comportamentos cooperativos (altruístas) evidentes não só na esfera do parentesco genético. Por outro lado, grandes construções históricas só foram possíveis estabelecendo uma harmonia baseada no reconhecimento do bem comum, na reciprocidade dos direitos e deveres, na cooperação e na partilha. Nem pacífica nem beligerante, nem boa nem má, nem bela nem feia, a existência humana desdobra-se numa trágica tensão entre estes pólos de atração e repulsão.

¹"Cada nação tem seu próprio centro de felicidade em si mesma, assim como cada esfera tem seu próprio centro de gravidade."

 

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