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Dominique Venner: Do Niilismo à Tradição - História e Tradição dos Europeus

November 14, 2016

I. Raça de Sangue, Raça de Espírito
 

Nos Estados Unidos, nacionalistas se posicionam sobre a questão racial, argumentando que ela denota diferenças significativas entre subespécies, e que tais diferenças tem significantes ramificações comportamentais e sociais, e que a presente ameaça à sobrevivência racial europeia constitui o único e mais vital desafio ao nosso povo. Na Europa, em contraste, nossos colegas adotam uma estratégia de certa forma distinta. Contra as forças anti-europeias do multiculturalismo, imigração do terceiro mundo, feminismo e globalização, nacionalistas europeus tendem a privilegiar não raça por si só, mas a defesa de sua identidade histórica e cultural.

 

Esta ênfase identitária pode ser explicada pela ausência na Europa de "First Amendment rights" e portanto da liberdade de tratar questões raciais francamente. Mas há, eu acho, outra, mais interessante razão por essas diferenças transatlânticas: Nomeadamente, nacionalistas europeus definem raça com não simplesmente uma questão de sangue, mas também espiritual - ou seja, como um fenômeno histórico cultural. Implícito nessa perspectiva está a suposição de que o corpo é inseparável do espírito o qual o anima, que diferença biológica, como uma vitalidade distinta, é outra forma de diferença espiritual, e que o significado de tais diferenças (haja vista que o homem é um ser espiritual, e não um mero animal) são melhor analisadas pelo prisma da cultura e história do que da ciência biológica do século XIX.

 

Raça, por conseguinte, pode ser o necessário substrato orgânico para todo povo distinto historicamente e culturalmente, porém suas propriedades biológicas, ainda que primordiais, são somente a forma, não a substância, de sua manifestação espiritual.

 

II. Dominique Venner

 

Estas distinções não só refletem nas diferenças estratégicas entre EUA e nacionalistas continentais mas também na maior divisa civilizacional que separa América de Europa - e, portanto, suas díspares trajetórias históricas. É especialmente evidente no fato de que europeus de todos os quadrantes políticos são atualmente imersos em um projeto que marcará a época - uma Europa unida politicamente -  o qual os promete domínio num futuro próximo. Há, além disso, um debate real sobre como o projeto europeu está para ser realizado, especialmente na França, onde a vontade pelo poder é mais desenvolvida. As forças do New Class no controle da União Européia, como era de se esperar, favorecem os princípios liberais, econômicos e quantitativos que estão levando os brancos em toda parte à ruína, considerando a Europa como uma civilização multirracial baseada em livre mercado, fronteiras desprotegidas e humanitarismo etnocida. Contra eles, os variados partidos anti-sistema desafiaram a ordem "liberal-democrática" do dinheiro imposto na Europa em 1945, em conjunto de centenas de formações de Nova Direita; Extrema-Direita; Nacionalistas Revolucionários; Conservadores Revolucionários, moldando a ala extraparlamentar da Direita, introduzindo uma série de contra-argumentos persuasivos, não somente circunscritos à linguagem de raça. Diferentemente dos seus homólogos do Novo Mundo, estes anti-liberais têm um milênio de tradição racial e cultural europeia para contrapor a sua oposição.

 

É nessa parte do debate na Europa que Histoire et tradition des européennes: 30 000 ans d’identité (História e Tradição dos Europeus: 30,000 Anos de Identidade) de Dominique Venner é situado. Poucos escritores vivos são melhor qualificados que Venner para falar de homens brancos no Ocidente. Por cinco décadas, no papel e nos inúmeros campos de batalha, ele ganhou o direito de fazê-lo. Sua primeira área de serviço na causa europeia foi na Argélia francesa, em que ele serviu como um paraquedista de elite. Mais tarde, na década de 60,  após descobrir que as forças cosmopolitas do capital internacional capturaram todas as formas de poder, ele lutou no outro front, desempenhando um papel de liderança no período de campanhas de extrema-direita. Apesar de conhecer mais de uma prisão francesa, ele ajudou a lançar a metapolítica carreira da "Nova Direita Europeia" (ou "Nova Cultura"), que desde então se tornou o principal adversário ideológico das forças liberais aliadas ao partido americano.

 

Por demonstrar coragem e integridade sobre pressão, Venner é um favorito das musas, tendo a autoria de mais de quarenta livros e inúmeros artigos das mais diversas facetas das experiências europeias. A maioria de seus livros são trabalhos de popularização histórica. Seus livros acerca da França Vichy, entretanto, são elencados como as maiores contribuições acadêmicas na área, assim como seus numeros livros acerca de armas de fogo e caça. A  história militar do exército vermelho, de Venner, ganhou o cobiçado prêmio da Académie Française. Seu Le coeur rebel, um livro de memórias de seus anos de paraquedista na Argélia e como militante no meio da política nacionalista parisiense da década de 60, eu acho um de seus melhores trabalhos do tipo. Venner também fundou e editou várias revisões históricas, a última sendo a Nouvelle Revue d'Histoire, a qual está endereçada em:  http://www.n-r-h.net/.

 

No seu trabalho mais recente, Histoire et tradition des européennes, este talentoso europeu se volta para o passado distante do seu povo para responder as grandes questões colocadas por seu futuro incerto.

 

III. Niilismo

 

Escrevendo no advento do novo milênio, Venner observa que, pela primeira vez na história, os europeus não dominam mais a terra de seus pais, tendo perdido o controle de suas fronteiras, suas instituições e os próprios meios de se reproduzirem como povo. Ele caracteriza o período presente como um de caos cultural e etnomasoquismo. Nenhuma casualidade do destino, esta era sombria culmina um período de agitação espiritual, na qual os europeus foram separados de suas raízes e forçados a encontrar-se em todos os lugares errados, incluindo a negação de si mesmos. A perda de significado e propósito alimentada por essa agitação, na qual formas tradicionais de identidade foram desprezadas como falsas, Venner classifica como "niilismo".

 

Para Nietzsche, o mais proeminente popularizador do termo, niilismo é um produto da "morte de Deus",  que mina a fé cristã e deixa o mundo na ausência de sentido e propósito. Venner observa isso em termos, de certa forma, mais amplos, designando não simplesmente a perda de crença religiosa, mas a perda da grande herança cultural como a fonte principal do niilismo. Nesse sentido, niilismo subverte todas aquelas referências transcendentais que anteriormente orientaram o Ocidente, deixando o homem moderno com um mundo desencantado de satisfações materialistas e certezas científicas, mas indiferente com relação a "todos os valores maiores de vida e personalidade". Dando seu foco na base física da existência, o niilismo promove uma condição desprovida de sentido, forma ou ordem e, portanto, uma privação de todos esses padrões os quais possibilitam nos auxiliar na negociação de grandes desafios de nossa era. Uma consequência especialmente terrível dessa perda de transcendência é a crise civilizacional na qual a sobrevivência de nossa raça se torna uma questão de indiferença generalizada.

 

Venner traça as raízes do niilismo até o advento da "civilização Faustiana", de Spengler, a qual começou inocentemente quando São Tomás introduziu a lógica aristotélica à teologia cristã, privilegiando assim as forças da racionalidade. Pelo fato do Cristianismo alegar que há somente uma única verdade e uma única autoridade (a Igreja), a Razão nesta reforma Tomista foi feita como o principal meio de acessar o divino. Mas como pela primeira vez o Deus cristão se tornou dependente da razão, Ele se arriscou a ser por ela repudiado. Isso veio com Descartes, o fundador da filosofia moderna, o qual tornou a razão puramente em uma faculdade instrumental e calculista. Na forma de ciência, tecnologia e indústria, o racionalismo Cartesiano reduziu tudo a causalidade mecânica, associando a razão com o domínio progressivo da natureza, uma crença no progresso (em breve a suplantar a crença na Providência), e, finalmente, o domínio do dinheiro.

 

Venner afirma que uma razão matemática dessecada, não importa quão tecnologicamente potente, não é substituto para referências transcendentes, pois um mundo desencantado governado por seus princípios é um mundo desprovido de significado e propósito. A mecanização contínua da existência humana e as prioridades econômicas e quantitativas que ela favorece estão, de fato, baseadas na erradicação das estruturas transgeracionais da história, tradição e cultura que orientam todos os sistemas de crenças tradicionais. E uma vez que tais estruturas dão lugar às proposições anti-orgânicas do racionalismo, também o significado dessas qualidades distingue os europeus dos outros membros da família humana. Nesse espírito, o mundo nascido do niilismo toma como seu ideal uma humanidade abstrata, uniforme e com cor de café, indiferente às formas de vida pré-racionais baseadas na herança orgânica da Europa.

 

Quanto maior a esterilidade do niilismo invadindo, Venner explica, maior é a necessidade de se reconectar com as fontes primordiais do ser europeu. Isso, no entanto, agora só é possível através da investigação e reflexão, pois estas fontes foram largamente extirpadas da vida europeia. Descobrindo os principais tropos da história e tradição da Europa, Venner não propõe, portanto, um retorno literal às origens (o que, de qualquer modo, é impossível), mas sim um encontro hermenêutico que busca algo de seu ímpeto criativo. Nessa perspectiva, a Ilíada de Homero, escrita há trinta séculos, ainda tem a capacidade de nos capacitar porque expressa algo primordial em nossa alma racial, conectando-nos com o que éramos no início da nossa história e com o que podemos estar nas aventuras que temos pela frente. Sempre que os europeus se reconectam com essas fontes primordiais, tomam, assim, um passo em direção à realização de uma identidade - e um destino - que são distintamente seus.

 

IV. Tradição

 

Quando Venner fala de tradição, ele não se refere aos ritos e práticas usuais que os antropólogos estudam, nem aceita a abordagem utilitarista de Edmund Burke e Russell Kirk, que a tratam como a sabedoria acumulada de eras passadas, nem, finalmente, ele a vê como um corpo de princípios trans-histórico subjacentes das religiões do mundo, como René Guénon e Julius Evola veem. A tradição em sua visão é aquela que é imutável e renasce perpetuamente na experiência de um povo da sua história, pois é enraizada no substrato primordial dele. Não deve, portanto, ser confundida com as tradições e os costumes legados pelo passado, mas, em vez disso, vista como uma essência duradoura - a verdade - de uma comunidade histórica particular, constituindo, como tal, a base de infra-estrutura - o alicerce cultural - de seu espírito e vitalidade.

 

A partir desta perspectiva, a Europa não nasceu com a assinatura de certos acordos de livre comércio no final do século XX, mas a partir de milênios de tradição. Em nenhum lugar isso é mais claro do que nos temas que ligam a Ilíada, os épicos medievais, as sagas nórdicas, mesmo o poema nacional do Maherr armênio, onde nos deparamos com a mesma ética de guerreiro que faz da coragem o teste final de caráter de um homem; as mesmas noções aristocráticas de serviço e lealdade; os mesmos códigos cavalheirescos cujos padrões são orientados pela beleza, justiça e harmonia; o mesmo desafio diante da autoridade injusta e sentimentos ignóbeis, mas, acima de tudo, a mesma revolta metafísica contra uma existência sem provações. A partir desses temas civilizacionais, Venner afirma que o legado orgânico que é a Europa toma forma.

 

A própria palavra "Europa" tem cerca de três milênios de existência, cunhada pelos gregos para se distinguir dos povos da África e da Ásia. Não por acaso, a Europa helência foi forjada - miticamente em Homero, historicamente nas guerras pérsicas - em oposição à Ásia. As raízes da tradição da Europa remontam, porém, de além dos gregos, mesmo além dos povos indo-europeus, os quais moldaram as estruturas culturais e linguísticas do seu povo raiz. Começou há 30.000 anos, no alvorecer do homem de Cro-Magnon, cuja imagem cultural perdura nas extraordinárias pinturas rupestres de Chauvet (França) e Kapova (Ucrânia), naquela região que se estende dos Pirineus aos Urais, onde, por quase 20.000 anos, até a última Idade do Gelo chegar, o embrião da civilização europeia tomou forma: como raça e cultura fundidas em uma sinergia excepcionalmente brilhante. Toda Era subsequente sucedeu, reformulada e adicionada a esta herança tradicional - toda era, com exceção da atual niilista, na qual liberais e estrangeiros dominam.

 

V. História              

 

Darwin talvez tivesse razão ao explicar a evolução das espécies, mas, insiste Venner, a história opera independentemente de leis zoológicas ou científicas. Como tal, a história é menos uma progressão retilínea do que uma espiral, sem começo ou fim, com ciclos de decadência e renascimento intrincados a seus desdobramentos infinitos. Nenhum determinismo ou causalidade isolada pode assim compreender a complexidade de seus variados movimentos. Nem pode qualquer causa abrangente explicá-los. Dado, portanto, que uma multiplicidade de determinismos atua na história, cada um tendo um efeito aberto, cujo curso e significado são decididos pelo ator histórico, a liberdade humana recupera seus direitos. E, como faz, a história não pode mais ser vista como tendo uma teleologia embutida, como presume a historiografia "científica" ou ideológica, com seus determinismos reducionistas. Isso significa que não há nada inevitável no processo histórico para, a qualquer momento, ele poder tomar uma direção inteiramente nova. De fato, nenhum dos grandes eventos do passado responde à "necessidade", que é sempre uma invenção a posteriori.

 

Ao condicionar o crescimento de um povo, o patrimônio existente constitui apenas um determinante entre muitos. De acordo com Venner, o patrimônio existente entra em combinação infinita com as forças da fortuna (cujo símbolo clássico é uma mulher precariamente equilibrada em uma roda giratória) e virtù, uma qualidade romana que expressa vontade individual, audácia e energia, para produzir um resultado histórico específico. Nesta conjuntura de determinismo e fortuna, a virtù do ator histórico torna-se potencialmente decisiva. Lênin, Hitler, Mussolini - como Alexandre, César e Arminius antes deles - ou Frederico II, Pedro o Grande, Napoleão - eram todos homens cuja virtù foi de magnitude histórica e mundial. Sem suas intervenções, numa arena organizada pela herança do passado e sujeita às forças do acaso, a história poderia ter tomado um rumo diferente. Isso sugere que a história é perpetuamente aberta - e aberta no sentido de que seu desdobramento é continuamente afetado pela consciência humana. O significado da história, portanto, não se encontra nas correntes anônimas que moldam seus movimentos entrópicos, mas nos significados que os homens lhes impõem. Pois, diante dos supostos determinismos que justificam a ordem existente, é a coragem - a virtù - do ator histórico que dobra o processo histórico de formas significativas para quem somos como povo.

 

Na visão de Venner, o Europeu da história é melhor visto como um guerreiro com uma espada, símbolo de sua vontade. A virtù deste guerreiro é afirmada cada vez que ele impõe seu cosmos (ordem) sobre um mundo cuja única ordem é aquilo que ele mesmo lhe dá. A história, portanto, não é um determinismo imobilizador, mas um teatro da vontade, em cujo estágio os grandes homens de nosso povo se exercem. Tanto como disciplina intelectual como ato individual de vontade, não é coincidência de que a história seja a forma de arte preeminente da Europa.

 

VI. Em defesa de quem somos

 

Como a história, a vida não tem começo nem fim, sendo um processo de luta, uma superação de obstáculos, um combate, em que a vontade do ator é fundamental. Enquanto inexoravelmente termina em morte e destruição, de seus desafios toda nossa grandeza flui. Os helenos entraram na história recusando-se a ser escravos. Tendo a sua espada contra um inimigo asiático, eles ganharam o direito de ser quem eram. Se existe um tema que anima o tratamento de Venner da história e da tradição da Europa, é que os europeus superaram os intermináveis desafios à sua existência apenas porque enfrentaram-nos com a espada de forma direta, sabendo que isso não era apenas parte de sua condição humana, mas da maneira de provar que eles eram dignos de seu destino. Assim, à medida que a Grécia clássica se levantou na luta contra os persas, os romanos contra os cartagineses, a Europa medieval e os a Europa moderna contra o árabe, depois o turco, o islã, atualmente nós também temos de ficar nas nossas fronteiras, com a espada em mãos, para conquistar o direito de sermos nós mesmos.

 

Os europeus, conclui Venner, devem olhar para sua história e tradição - especialmente para a honra, o heroísmo e a herança que Homero imortalizou - para redescobrirem a si mesmos. Caso contrário, tudo o que busca a supressão de seu espírito e a extinção de seu sangue os apagarão da história. A questão, portanto, surge: no choque etnocídico entre o niilismo reinante e os homens brancos do Ocidente, quem prevalecerá? A partir do extraordinário livro de Venner, no qual o historiador passa do drama do acontecimento à cena de nossa longue durée (estrutura histórica a longo termo), somos levados a acreditar que esta questão será respondida a nosso favor somente se permanecermos fiéis a quem somos, ao que nossos antepassados fizeram por nós, e ao que Francis Parker Yockey, nos anos sombrios após a Segunda Guerra Mundial, chamou de "a primazia do espírito".

Original: http://www.counter-currents.com/2010/06/from-nihilism-to-tradition/

 

 

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