Julius Evola: A Pluralidade e a Dualidade das Civilizações


Recentemente, em contraste à noção de progresso e à ideia de que a História tem sido representada como uma mais ou menos contínua evolução ascendente da coletividade humana, a ideia de pluralidade de formas de civilização e da relativa incomunicabilidade entre elas tem sido confirmada.

De acordo com essa segunda e nova versão da História, a civilização se divide em épocas e ciclos desconexos. A um dado momento e no seio de uma dada raça, uma concepção específica do mundo e da vida é afirmada, seguida de um sistema específico de verdades, princípios, entendimentos e realizações. Uma civilização surge, gradualmente atinge um ponto culminante e, então, cai na escuridão e não raro desaparece.

Um ciclo terminou. Talvez outro surgirá novamente um dia, em um outro lugar. Talvez ela possa até mesmo assumir as preocupações das civilizações precedentes, mas qualquer conexão entre elas será estritamente analógica. A transição de um ciclo de civilização para outro – um completamente estranho ao outro – implica em um salto, o que na matemática é chamado de descontinuidade. Ainda que essa visão seja uma reação saudável à superstição da História como progresso – que se tornou moda mais ou menos ao mesmo tempo que o materialismo e o cientificismo ocidental – ainda assim deveríamos ser cautelosos pois, além da pluralidade das civilizações, temos que reconhecer uma dualidade, especialmente quando nos limitamos aos períodos e estruturas essenciais que podemos abraçar com certa medida de certeza.

A civilização moderna situa-se de um lado enquanto todas as outras civilizações que a precederam ficam do outro (para o Ocidente, podemos posicionar a linha divisória no final da Idade Média). A ruptura é completa nesse ponto. À parte das inúmeras variedades das suas formas, a civilização pré-moderna, que podemos chamar de “tradicional”, significa algo muito diferente, pois existem dois mundos: um se separou ao cortar quase todo o contato com o passado. Para a grande maioria dos modernos, isso significa que toda e qualquer possibilidade de compreender o mundo tradicional foi completamente perdida.

Esta premissa é indispensável para a análise de nosso assunto (alquimia). A tradição hermético-alquímica forma parte do ciclo da civilização pré-moderna “tradicional” e, para entender o seu espírito, devemos traduzi-la e internalizá-la de um mundo para o outro. Quem empreende tal estudo sem ter adquirido a habilidade de erguer-se acima da mentalidade moderna ou não ter despertado para uma nova sensibilidade, que pode colocar a si mesma em contato com a corrente espiritual geral, responsável por dar vida à tradição, só conseguirá encher a própria cabeça com palavras, símbolos e alegorias fantásticas. Ademais, não se trata apenas de uma questão de compreensão intelectual. Temos que ter em mente que o homem antigo não apenas possuía uma forma diferente de pensar e sentir, mas também de perceber e conhecer. O âmago da questão que nos será de interesse é reinvocar, através de uma transformação verdadeira da consciência, a antiga base da compreensão e ação.

Somente então a inesperada luz de certa expressão raiará em nós e certos símbolos terão o poder de despertar a nossa percepção interior. Somente então seremos conduzidos a partir deles para novos cumes da realização humana e para a compreensão que tornará possível para designados “ritos” conferir poderes “mágicos” e operantes, assim como para a criação de uma nova “ciência”, que não tem nenhuma semelhança com o que recebe este nome nos dias de hoje.

Trecho da obra “A Tradição Hermética”.

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