Greg Johnson: Pós-modernismo, Hedonismo & Morte


“Pós-modernismo” é um desses termos acadêmicos evasivos como “paradigma” que se infiltraram no discurso pseudo-intelectual e, até mesmo, no discurso dos incultos. Aqueles entre nós que possuímos críticas fundamentais e baseadas em princípios à modernidade, aprendemos rapidamente que o pós-modernismo está longe de ser suficientemente pós-moderno. Na verdade, sob muitos aspectos, trata-se apenas de uma intensificação das piores características da modernidade.

Gostaria de discutir duas teses filosóficas: 1) existe uma identidade interna entre a cultura pós-moderna e o hedonismo e 2) o hedonismo, levado ao extremo, pode conduzir à sua autossuperação ao providenciar um encontro com a morte – um encontro no qual, caso se sobreviva, pode expandir a consciência própria e do mundo de um indivíduo para abraçar motivações e ações não-hedonistas.

Para os meus propósitos, a pós-modernidade é uma atitude em relação à cultura caracterizada por 1) ecletismo ou bricolage, quer dizer, a mistura de diferentes culturas e tradições, i.e., multiculturalismo e 2) ironia, desinteresse e jocosidade em relação à cultura, que é, antes de qualquer outra coisa, o que permite que misturemos e manipulemos as culturas.

O cerne de uma cultura genuína é uma visão de mundo, uma interpretação da existência e do nosso lugar nela, bem como a nossa natureza e a melhor forma de vida para nós. Esses são assuntos sérios. Devido à seriedade fundamental de uma cultura viva, cada uma é caracterizada por uma união de estilo, cujo outro lado é uma exclusão de formas culturais alheias. Afinal, se alguém leva sua própria visão de mundo a sério, esse alguém não pode levar visões de mundo incompatíveis com igual seriedade. (Sim, é um fato que culturas tomam emprestado umas das outras, mas uma cultura séria só toma emprestado aquilo que ela pode assimilar à sua própria visão de mundo e utilizar para a sua maior glória).

O cerne de uma cultura viva não é primariamente um conjunto de ideias, mas de ideais. Ideais são ideias que impõem afirmações normativas sobre nós. Eles não apenas nos dizem o que é, mas o que deve ser. Assim como “O Torso Arcaico de Apollo” de Rilke, ideais exigem que mudemos as nossas vidas. O cerne de uma cultura viva é um panteão de ideais que é vivenciado de forma numinosa e fascinante. Um indivíduo formado por uma cultura viva possui um senso fundamental de identificação e participação para com a sua cultura. Ele não pode separar a si mesmo dela e, uma vez que ela é a fonte das suas ideias de sua natureza, a boa vida, o cosmos e seu lugar nele, sua atitude em relação à cultura é fundamentalmente sincera e séria, até mesmo religiosa. Em um sentido muito profundo, ele não é dono de sua cultura. Ele pertence a ela.

Em termos de sua relação com a cultura, os seres humanos se enquadram em duas categorias básicas: saudável e doentia. Seres humanos saudáveis experimentam os ideais que definem uma cultura como um desafio, como um estimulante. O espaço entre o ideal e o real é ligado por um anseio da alma pela perfeição. A ânsia é uma tensão, como a tensão da corda da lira, que torna a grandeza humana possível. A cultura forma os seres humanos não apenas ao evocar anseios idealistas, mas também por suprimir, modelar, estilizar e sublimar nossos desejos naturais. A cultura possui um elemento de mortificação, mas organismos saudáveis abraçam essa dimensão ascética como um caminho para o enobrecimento através da autotranscendência.

Organismos doentios experimentam a cultura de uma forma totalmente diferente. Ideais não são vividos como desafios para estimular e mobilizar a força vital. Ao contrário, eles são experimentados como uma ameaça, um insulto, uma imposição externa, um espinho que fere a carne. O organismo doentio deseja libertar a si mesmo da tensão criada pelos ideais – que ele vivencia como nada mais do que expectativas despropositadas (despropositadas pelos padrões de uma razão imanentizada, um mero cálculo hedonista). O organismo doentio não deseja suprimir e sublimar seus desejos naturais. Ele deseja validá-los como suficientemente bons e, então, expressá-los. Ele deseja deixá-los com a rédea solta, não freá-los.

Infelizmente, os decadentes também possuem Vontade de Poder. Desta forma, eles conseguiram libertar a si mesmos e aos seus desejos da tirania da cultura normativa e instituir uma contracultura decadente em seu lugar. Este é o real significado do “pós-modernismo”. O pós-modernismo substitui a participação pela indiferença, o zelo pela ironia, a seriedade pela jocosidade, o fascínio pela emancipação. Tais atitudes desmitologizam e profanam o panteão de ideais numinosos que é o coração pulsante de uma cultura viva.

A cultura, então, torna-se um mero museu de cera: um reino de ideias e artefatos descontextualizados mortos. Quando uma cultura é eviscerada da visão de mundo que a define, toda a integridade, toda a unidade de estilo é perdida. A integridade cultural dá lugar ao multiculturalismo, que é meramente uma forma pretensiosa de descrever um centro comercial onde artefatos são comprados e vendidos, misturados e combinados para satisfazer aos desejos emancipados do consumidor: um museu de cera funcionando ao ritmo do comércio.

No entanto, mesmo quando o desejo torna-se emancipado e soberano, possui uma tendência a superar a si mesmo de forma dialética, pois a busca desenfreada pelo prazer leva, frequentemente, a topadas com a morte, que podem causar uma reavaliação fundamental da vida e prioridades de um indivíduo. Como disse William Blake: “O tolo que persiste em sua tolice tornar-se-á sábio”.

Ademais, por mais que hedonistas desejem tornar-se meros animais contentes, eles permanecem como seres humanos estragados. A alma humana ainda contem anseios por algo mais que a mera saciedade dos desejos naturais. Esses anseios, além disso, estão fortemente entrelaçados com esses desejos. Por exemplo, os meros desejos naturais são poucos e facilmente saciados. Mas a imaginação humana pode multiplicar os desejos ao infinito. Muitos desses desejos artificiais, ademais, são por objetos que satisfazem uma necessidade por honra, reconhecimento, status e não meros confortos naturais. O hedonismo não é uma existência animal, mas uma mera pervertida e profanada existência humana.

Assim, sempre haverá um “excedente” de humanidade acima e abaixo do que pode ser satisfeito pelos desejos naturais. Esse excedente requer satisfação também, causando uma profunda insatisfação e inquietação em todo hedonista. A inquietação pode conduzir também, finalmente, a um encontro transformador com a morte.

Se a vida animal se resume ao contentamento, plenitude, abundância – a satisfação dos nossos desejos naturais – então um modo de existência distintamente humano emerge quando os hominídeos mortificam a carne em nome de algo superior.

Hegel acreditava que a perfuração da carne era a primeira expressão do espírito humano na existência animal. Isso lança uma luz interessante sobre a popularidade do body piercing e da tatuagem no contexto da cultura pós-moderna, que será o assunto de um artigo futuro. Para Hegel, porém, o encontro verdadeiramente antropogenético com a morte não é a “pequena morte” da automortificação, mas uma batalha intencionalmente realizada até à morte por honra, que é, também, o assunto de um futuro artigo.

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