Dominique Venner: A Tríade Homérica


Para os Antigos, Homero era "o princípio, o meio e o fim". Uma visão do mundo e até mesmo uma filosofia estão implicitamente contidos em seus poemas. Heráclito resumiu sua fundação cósmica com sua bem dita frase: "O universo, o mesmo para todos os seres, não foi criado por nenhum deus ou por qualquer homem; mas sempre foi, é e será eternamente fogo vivo..."

1. Natureza como Fundação

Em Homero, a percepção de um cosmo incriado e ordenado é acompanhada por uma visão mágica carregada por mitos antigos. Os mitos não são crenças, mas a manifestação do divino no mundo. As florestas, as rochas, os animais selvagens têm uma alma que Ártemis (Diana para os romanos) protege. Toda a natureza se funde com o sagrado, e os homens não são isolados dele. Mas a natureza não se destina a satisfazer os nossos caprichos.

Na natureza, em sua imanência, aqui e agora, encontramos, por outro lado, respostas à nossa angústia: "Como as folhas nascem, assim são os homens. O vento dispersa as folhas no chão, mas a floresta é verde novamente na primavera. Assim também com os homens: uma geração nasce como outra é apagada "(Ilíada, VI, 146). A roda das estações e da vida, cada uma transmitindo algo de si para aqueles que seguem, assegurando assim uma medida da eternidade.

Certeza reforçada pela consciência de deixar uma lembrança na mente do futuro, que Helena diz na Ilíada: "Zeus nos deu um destino difícil para que sejamos louvados pelos homens vindouros" (VI, 375-376). Talvez, mas a glória de um nome nobre é apagada como todo resto.

O que não passa é interno, dentro de si mesmo, na verdade da sua própria consciência: ter vivido nobremente, sem maldade, ter permanecido de acordo com o modelo que se estabeleceu.

2. Excelência como meta

Na imagem dos heróis, os homens verdadeiros, nobres e consumados (kalos kai agathos) buscam na coragem da ação a medida de sua excelência (arete), como as mulheres buscam no amor ou dando de si a luz que as torna reais. A única coisa que importa é o que é bonito e forte.

"Seja sempre o melhor", diz Peleu a seu filho Aquiles, "melhor do que todos os demais" (Ilíada, VI, 215).

Quando Penélope é atormentada pelo pensamento de que seu filho Telêmaco poderia ser morto pelos "pretendentes" (usurpadores), o que ela teme é que ele poderia morrer "sem glória", antes de fazer o que é preciso para se tornar um herói igual ao seu pai (Odisseia, IV, 728).

Ela sabe que os homens não devem esperar pelos deuses e ter esperança por qualquer ajuda além de si mesmos, como Heitor disse em rejeitar um mau agouro: "Outro presságio é melhor: que se lute para sua pátria" (Ilíada, XII, 250).

Na batalha final da Ilíada, compreendendo que ele é condenado pelos deuses ou pelo destino, Heitor se afasta do desespero por uma onda de heroísmo trágico: "Ah, bem! Não, não pretendo morrer sem luta nem sem glória, nem sem grande obra que os homens venham a contar "(XXII, 330-333).

3. Beleza como horizonte

A Ilíada começa com a raiva de Aquiles e termina com ele aliviando a tristeza de Príamo. Os heróis de Homero não são modelos de perfeição. Eles são propensos a erro e excesso em proporção à sua vitalidade. Por esta razão, eles caem sob os golpes de uma lei imanente que é a fonte do mito e da tragédia grega. Toda culpa traz castigo, a de Agamenon como a de Aquiles. Mas para Homero, inocentes também podem ser de repente atingidos pelo destino, como Heitor e tantos outros, porque ninguém está a salvo do destino trágico.

Essa visão da vida é estranha à ideia de uma justiça transcendente que puniria o mal ou o pecado. Em Homero, nem o prazer; nem o gosto pela batalha; nem a sexualidade, nunca são comparados ao mal. Helena não é culpada por uma guerra desejada pelos deuses (Ilíada, III, 170-175). Somente os deuses são culpados dos destinos que acontecem aos homens.

As virtudes elogiadas por Homero não são morais, mas estéticas. Ele acredita na unidade do ser humano definida por seu estilo e seus atos. Assim, os homens se definem com referência ao belo e ao feio, ao nobre e ao vil, não ao bem ou ao mal. Ou, para colocar de forma diferente, o esforço para o belo é a condição do bem.

Mas a beleza não é nada sem lealdade ou coragem. Assim Paris não pode ser realmente bonito porque é um covarde. Ele é apenas um almofadinha que engana seu irmão Heitor e até mesmo Helena, que ele seduziu por magia. Por outro lado, Nestor, apesar de sua idade, conserva a beleza de sua coragem.

Uma bela vida, o objetivo final da excelência da filosofia grega, da qual Homero foi a expressão primordial, supõe o culto à natureza, o respeito à modéstia (Nausícaa ou Penélope), a benevolência dos fortes para os fracos (exceto no combate) , o desprezo pela baixeza e feiura, a admiração pelo malfadado herói.

Se a observação da natureza ensinou os gregos a moderar suas paixões, a limitar seus desejos, então não há nada de tolo sobre a ideia de que eles eram sábios antes de Platão. Eles sabiam que a sabedoria estava associada às harmonias fundamentais nascidas da superação de oposições: masculino e feminino, violência e gentileza, instinto e razão. Heráclito tinha ido à escola de Homero quando disse: "A natureza ama os opostos: através deles ela produz harmonia".

Original: http://www.counter-currents.com/2010/08/the-homeric-triad/

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